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As duas disciplinas que todo biólogo deveria ter na Universidade (mas, não tem!)

  • Giselle Guimarães Gomes
  • 29 de abr.
  • 8 min de leitura

Se eu pudesse mudar uma coisa na formação dos biólogos, não seria carga horária, nem grade curricular cheia de nomes bonitos que ninguém lembra depois, muito menos mais uma disciplina técnica...

 

Eu incluiria duas disciplinas que, sinceramente, fazem falta...muita falta! E, pensando melhor, não são úteis apenas para biólogos, não. São úteis para qualquer pessoa que sai da universidade achando que o mundo vai se organizar ao redor do diploma.

 

Ilustração conceitual de um biólogo de jaleco em uma ponte frágil entre dois mundos: de um lado, um laboratório com microscópio, tubos de ensaio e livros de biologia; do outro, uma cidade moderna representando mercado, inovação e regulação. A cena simboliza a desconexão entre a formação acadêmica em biologia e a aplicação prática no mundo real.

Porque não vai.


 

A primeira dessas disciplinas seria algo na linha de “Como ganhar dinheiro sendo biólogo” (sim, o nome pode melhorar… mas a ideia é essa, você entendeu, hehe)

 

A verdade é simples: a gente sai da faculdade sem saber como se sustentar. Ou pelo menos eu saí assim, lá em 2001. Um diploma na mão e agora?

 

Na minha cabeça, existiam duas opções: ou eu fazia licenciatura para dar aula em escola para crianças e adolescentes ou eu fazia o bacharelado, seguido de mestrado e doutorado para prestar concurso eventualmente. E só. Eu segui essa última, mas a cada dia que passa eu penso que isso é um enorme esquema de pirâmide: um professor formando trinta alunos que almejam ser professor? Eventualmente, vai colapsar.

 

Eu até sabia que existiam empresas. Sabia que tinha mercado. Me lembro de ter visitado uma fábrica da Bayer em Belford Roxo, e eles tinham um biólogo lá. Exatamente um. Era responsável por tratamento biológico de resíduos.


Empresa contratando biólogo era meio cabeça de bacalhau: todo mundo falava, ninguém tinha visto... Tinham os laboratórios de análises clínicas, claro! Eu fui criada dentro deles, meus tios são biólogos e minha mãe é técnica, trabalha fazendo hemograma até hoje, 83 anos. É uma remanescência de uma época em que teste de gravidez era feito no sapo. Sim, isso existe, google it! Mas, os laboratórios são a cada vez menos dependentes dos biólogos, concentrados em grandes redes, mesmo os de biologia molecular e, sendo sincera, na UFRJ, análises clínicas sequer é matéria da Biologia, está no currículo da Farmácia.

 

A disciplina que eu tenho em mente e que, na prática, poderia virar duas ou três, precisaria cobrir o básico que ninguém ensina, sobre como ganhar dinheiro e que somos forçados a aprender errando e corrigindo, na força do ódio.

 

Competências que eu imagino que essa disciplina deveria almejar conferir:

 

a)        Como construir trajetória profissional. Direto ao ponto: não é só escrever currículo bonito. Mas, entender que experiência se constrói deliberadamente, com escolhas de percursos e caminhos. Deveria ser papel do orientador, mas convenhamos, orientador mal dá conta de orientar sua dissertação e tese e o que ele sabe de mercado se ele mesmo seguiu o esquema da pirâmide, só que entrou antes do colapso?

  • como escolher estágios e eventos com estratégia. Porque o tempo é curto e nem tudo vale à pena.

  • como montar uma trajetória ao longo do tempo que gere um currículo coerente. Inclusive para se valorizar e se diferenciar de outras carreiras, como Biomédico, Biotecnologista, Engenheiro de Bioprocessos, Engenheiro Ambiental, Zootecnista, Agrônomo, Farmacêutico, Biofísico...

  • como escrever CV, resumée, mini bio, carta de apresentação, foto? E aqui estou falando de design, comunicação visual, escolhas estratégicas do que expor

  • onde buscar oportunidades além do óbvio. Não é só Linkedin, redes sociais e sites de vagas.

  • e, óbvio, um mínimo de CLT. Porque contrato não é detalhe. Prestador de serviço, na forma de PJ ou autônoma, tem bônus e ônus e não pode ser engolido goela abaixo, mas uma escolha deliberada.

Em inglês, tem uma expressão “take the bull by the horns” significando algo na linha de tomar as rédeas da própria vida. Essa é síntese dessa competência. Mais ação e menos reação.

 

b)       Empreendedorismo (mesmo para quem não quer empreender). Porque não é só sobre virar empresário, mas sobre entender a mente do empresário, mesmo sendo empregado ou prestador de serviço. É sobre entender o jogo. Como eu já disse, antes, não há espaço para todo mundo ser professor, servidor público ou empregado formal. Para os criativos e com alma de desatador de nós, o empreendedorismo pode, sim, ser a melhor opção. Ao contrário do nosso imaginário, empresa de biólogo não é cabeça de bacalhau e existe aos montes! A minha crítica é mais em relação à sua invisibilidade. Então, essa competência viria com:

  • como mapear empresas que já existem (e descobrir o que elas fazem de fato)

  • como funcionam incubadoras, aceleradoras e sandboxes regulatórios, etc

  • como identificar problemas técnicos que requerem solução e aqui entram como buscar essas soluções e como inventá-las, caso não existam.

  • como transformar a pesquisa do laboratório em produtos e serviços que dão dinheiro

  • como identificar quem precisa da sua solução e como vendê-la!

  • como buscar financiamento para empreender (editais, investidores anjo, venture capital). Pedir dinheiro não é vergonha. Já fazemos na academia, com as bolsas, a lógica é bem parecida, aliás.

  • como abrir um CNPJ (sem drama)

  • como registrar uma marca, um produto, um laboratório, um design, uma indicação geográfica, como obter a concessão de uma patente. Aqui, entram PI e regulação em geral.

  • como pensar minimamente em custo, preço e viabilidade de mercado.a.        como mapear empresas que já existem (e descobrir o que elas fazem de fato)

  • como funcionam incubadoras, aceleradoras e sandboxes regulatórios, etc

  • como identificar problemas técnicos que requerem solução e aqui entram como buscar essas soluções e como inventá-las, caso não existam.

  • como transformar a pesquisa do laboratório em produtos e serviços que dão dinheiro

  • como identificar quem precisa da sua solução e como vendê-la!

  • como buscar financiamento para empreender (editais, investidores anjo, venture capital). Pedir dinheiro não é vergonha. Já fazemos na academia, com as bolsas, a lógica é bem parecida, aliás.

  • como abrir um CNPJ (sem drama)

  • como registrar uma marca, um produto, um laboratório, um design, uma indicação geográfica, como obter a concessão de uma patente. Aqui, entram PI e regulação em geral.

  • como pensar minimamente em custo, preço e viabilidade de mercado.

 

Dois pontos importantes. 1) Não é para todo mundo empreender. Mas é para todo mundo entender que essa via existe e como ela funciona. 2) A ideia aqui não é esgotar o assunto, mas introduzir. Abrir a porta, mostrar que existe essa opção, que ela não é nenhum bicho de sete cabeças e que é, sim, viável. Muito possivelmente, a pessoa que decidir por esse caminho ainda vai precisar estudar mais e vai quebrar muito a cabeça, mas é bem diferente do cenário atual, em que quase ninguém considera essa possibilidade.

 

c)        A cadeia de inovação (a parte invisível do jogo). Pois a ciência não termina no paper. Ela só começa ali. Entre a bancada e a vida real, com o produto na prateleira, existe uma rede inteira:

  • regulação (Anvisa, MAPA, CGEN, IBAMA...)

  • propriedade intelectual (INPI)

  • biossegurança (CTNBio)

  • contratos de cessão e transferência de tecnologia

  • avaliação de risco e de liberdade para operar (freedom to operate)

  • captação de recursos (do mercado ao mercado)

Sem isso, a ciência não chega a lugar nenhum. Ou melhor: chega no artigo. E morre ali.

 

A segunda disciplina que eu penso ser essencial é Direito para biólogos (essa eu daria aula feliz). Na área ambiental, até existe algum contato com legislação: eu estudei licenciamento, EIA, RIMA, etc Mas na biologia “de jaleco”, a lei é praticamente invisível.

 

E isso é um erro.

 

Porque lei não é um detalhe no final do processo. Ela molda o caminho inteiro: o que pode ser pesquisado, como pode, quem pode acessar e explorar, como a ciência entra no mercado e o atravessa internacionalmente.

 

Estamos falando de coisas como:

 

·        lei de biossegurança

·        lei de cultivares

·        lei de sementes

·        lei da biodiversidade

·        lei de patentes (LPI)

·        bioética

·        regulamentação profissional, a lei do CRBio

·        normativas infra-legais, como as RDCs da Anvisa, as diretrizes de biotecnologia e a portaria de sequências biológicas do INPI, o banco de cultivares do MAPA.

·        Tratados internacionais, CDB, Convenção do Clima.

E muitas outras, só listei algumas aqui,  

 

Não é só a norma que já existe e é preciso compreender. Dá para ir além. Atuação política e institucional (sem ingenuidade). Lei não cai do céu. Lei é construída. Tem processo legislativo, tem disputa, tem interesses de grupos de poder, tem a redação fria do texto... E o biólogo quase nunca está nessa mesa enquanto tal. Às vezes, até está, mas na condição de servidor público, não na condição de biólogo.

·        como nasce uma lei

·        como acompanhar projetos legislativos

·        como participar de consultas públicas

·        como fazer advocacy técnico

·        como ler criticamente uma norma (e não só cumpri-la)

 

Isso não é “politização” da ciência, mas participação cientificamente qualificada na política. Se você não ocupa esse espaço, alguém ocupa por você. E nem sempre com o mesmo nível técnico. Dá uma olhadinha na página do Congresso, confere quem ocupa as comissões de ciência e tecnologia, são essas pessoas a quem o biólogo quer delegar as leis das quais a sua carreira depende?

 

E, em termos de Direito, a lei mais importante de todas para o biólogo, a lei que cria a sua profissão e a regulamenta. Conselho não serve só pra arrecadar anuidade, não! Eles poderiam ser muito mais úteis do que são. Basta olhar o papel que a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) exerce para os advogados. Ou o CFM para os médicos.

·        atuação institucional

·        defesa de prerrogativas

·        presença no debate público

·        influência na construção normativa

·        ações judiciais coletivas

·        responsabilidade técnica e suas consequências

Agora compara com a realidade de muitos conselhos técnicos... A diferença não é só institucional. É também de participação. Falta ao biólogo tomar posse do Conselho Profissional. Conheço quem tentou e se desiludiu. Não culpo. Dá trabalho. É preciso ocupar espaço. Participar, cobrar, influenciar. É transformar uma estrutura potencialmente irrelevante em algo efetivamente útil. É brigar não só contra concurso público, mas contra vagas privadas que excluem deliberadamente o biólogo da concorrência. Não exclusivamente, mas ter programas de esclarecimento. Convidar esses RHs para eventos. Tratar dos casos de equipes multidisciplinares. Pode um biólogo, enquanto tal, ser chefiado por outro profissional? Qual o limite técnico-administrativo? Enfim, trabalhar!

 

No fundo, o problema é outro e precisamos colocar luz em dois pontos doloridos:

·        primeiro, a formação do biólogo ainda carrega uma premissa silenciosa: o mundo acadêmico é o centro, o resto é periferia. Não é. O mundo real é uma rede. A ciência básica é só um dos nós. Se empreendedorismo não é para todos, doutorado tampouco. Há carência de posições para cientistas juniores. Gente que só quer ficar na bancada e fazer experimento de rotina.

·        e segundo, um componente silencioso, e pouco discutido, nessa formação: é quase como se ganhar dinheiro fosse vergonhoso. Como se falar de mercado fosse “menor”. Como se transformar conhecimento em valor econômico fosse uma espécie de desvio ético. Claro que na época de Darwin, cientista era coisa de fidalgo curioso e com tempo de sobra. Hoje, cientista tem boleto pra pagar. Esse ponto do dinheiro é curioso: porque ninguém acha vergonhoso depender de bolsa, de edital, de financiamento público.  Mas falar em receita, preço, cliente… isso incomoda. Esse desconforto não é neutro. Ele molda escolhas. Limita caminhos. E, no limite, empurra o biólogo para um funil cada vez mais estreito.

 

E no final, o ponto mais incômodo seja este: o problema não é que o biólogo não aprende a ganhar dinheiro. É que ele não aprende nem que isso é um problema.

 

Enquanto isso não for dito com todas as letras, continuaremos formando profissionais tecnicamente excelentes… e estrategicamente perdidos.

 

É um problema estrutural! E, como todo problema estrutural, não se resolve com esforço pessoal, mas mudando a estrutura de formação desde a base. Em outras palavras, precisamos mudar o que a gente ensina. Ou deixa de ensinar.

 
 
 

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