Quando o processo some, quem paga o preço?
- Giselle Guimarães Gomes
- 10 de jun.
- 3 min de leitura
A adoção à brasileira é um caso quase perfeito para pensar sobre processo, transparência e o que acontece quando decisões humanas operam sem registro.
Ela tem tudo: afeto real, conflito de interesses, narrativa redentora e um rastro de consequências que ninguém quis assinar.
A história costuma ser contada assim: uma criança precisava de uma família. Uma família queria uma criança. O Estado "atrapalhava". Então alguém simplesmente resolveu. Sem papel. Sem juiz. Sem fila. Sem processo. Sem perguntas.
E, de fato, muitas dessas histórias terminaram em vínculos reais de amor, cuidado e pertencimento. Negar isso seria desonesto.
Mas existe uma pergunta mais difícil que raramente aparece nessas narrativas romantizadas: quem estava sem voz naquela equação?
Processos não surgem do nada. Procedimentos não aparecem por capricho abstrato de burocratas entediados. Muitas vezes, surgem depois de tragédias repetidas. Depois de abusos reiterados. Depois que a sociedade percebe que determinadas decisões concentram poder demais nas mãos de poucos e deixam rastros de destruição invisível.
A adoção à brasileira permitiu, durante décadas, um campo cinzento onde conviviam solidariedade genuína, acordos familiares, coerção emocional, ocultação de origem, pressão sobre mães vulneráveis, registros falsos e pactos coletivos de silêncio.
Tudo isso sob o mesmo discurso confortável: "foi para o bem da criança".
Mas a vida raramente funciona em categorias tão limpas. Talvez tenha sido para o desejo de uma família. Talvez para evitar um escândalo. Talvez para aliviar a pobreza. Talvez até para proteger uma criança. E talvez tudo isso ao mesmo tempo.
O problema começa quando interesses humanos concretos passam a ser narrados como se fossem verdades morais puras e incontestáveis.
Porque não existe decisão sem custo. Não existe escolha sem deslocamento. Não existe solução humana absolutamente limpa.
Toda decisão favorece alguém, sacrifica algo, produz efeitos colaterais e reorganiza relações de poder.
O processo, seja o de adoção ou qualquer outro, existe justamente para registrar o caminho e garantir que tudo esteja visível. Não para eliminar o conflito, o que é impossível, mas para impedir que ele fique escondido atrás de narrativas redentoras.
Por isso transparência importa. Não porque a verdade seja sempre confortável. Não porque o procedimento seja perfeito. Não porque a burocracia seja intrinsecamente virtuosa.
O processo também pode falhar. Pode ser capturado por quem tem mais recursos para operá-lo. Pode tornar-se ele próprio um instrumento de poder, lento, opaco, inacessível para quem mais precisaria dele.
Mesmo assim, a alternativa é pior. Porque sem processo, o poder não desaparece. Ele apenas deixa de ser contestável.
Mas porque ausência de processo frequentemente significa apenas ausência de controle sobre quem decidiu, por quê decidiu e quem arcou com os custos da decisão.
A crítica contemporânea à burocracia muitas vezes parte de um erro: imaginar que o oposto do processo é liberdade.
Frequentemente não é. É mais frequentemente arbitrariedade. É a substituição de critérios públicos por vontades privadas. É a transferência silenciosa de poder para quem já possui mais influência, mais recursos ou mais capacidade de impor sua versão dos fatos.
O ECA, o Estatuto da Criança e do Adolescente, aprovado em 1990, não surgiu porque o Estado brasileiro descobriu subitamente o amor às formalidades. Ele surgiu porque histórias demais haviam sido enterradas sob o silêncio. Porque mães surtavam depois de terem filhos "doados". Porque crianças cresciam sem acesso à própria origem, inclusive médica. Porque registros oficiais estabilizavam ficções familiares. Porque a informalidade permitia que desejos individuais operassem sem transparência, contraditório ou responsabilização. O ECA não resolveu tudo isso. Trinta e cinco anos depois, a adoção irregular continua acontecendo. Mas criou um padrão contra o qual a irregularidade agora pode ser medida, nomeada e contestada. Isso não é pouco.
Nada disso significa demonizar a adoção. Tenho lugar de fala aqui.
A adoção não é feia. Não precisa ser escondida. Não diminui vínculos reais de amor.
Mas ela nasce de uma ruptura anterior. Sempre. E negar essa ruptura não elimina suas consequências, apenas as empurra para o subterrâneo psicológico e social. Talvez maturidade institucional consista justamente em abandonar a fantasia de decisões puras.
Não existe "para o bem de todos". Existe ponderação de interesses, custos, desejos, limites e consequências. E isso não é um defeito da vida. É a própria condição humana.
O papel do processo não é fingir que o conflito desapareceu. É registrar o caminho, tornar visíveis os interesses envolvidos e impedir que alguém oculte o conflito e romantize a decisão.
A adoção foi o exemplo. Mas a estrutura se repete.
Toda vez que a forma é abandonada em nome de uma solução "mais simples", alguém perde proteção. E esse alguém, quase sempre, é quem tinha menos poder para se defender sozinho.





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