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Integridade, corrupção e a confortável ilusão do “Eu não fiz nada”

  • Giselle Guimarães Gomes
  • 14 de mai.
  • 3 min de leitura

A degradação moral mais perigosa nem sempre é barulhenta. Muitas vezes, ela opera silenciosamente pela omissão, pela conveniência e pela anestesia da consciência.


Quando se fala em corrupção, a imagem costuma ser sempre a mesma:

malas de dinheiro, contas no exterior, dinheiro na cueca.

 

Mas talvez essa seja apenas a forma mais vulgar de corrupção.

 

Existe outra, mais sofisticada e socialmente aceita: a corrupção da integridade. Não a do sujeito que rompe explicitamente a regra, mas a daquele que vê, entende, percebe e, ainda assim, decide não agir.

 

Outro dia, conversando sobre o caso do Banco Master, alguém fez uma pergunta quase inevitável: “Como um esquema desse tamanho se sustentou por tanto tempo? Será que ninguém viu?”

 

E a resposta desconfortável é gritantemente óbvia:

 

Sala de reunião corporativa moderna com executivos sentados em volta de uma mesa enquanto uma grande infiltração de água cai do teto e alaga o ambiente. Apesar do evidente problema estrutural, todos continuam focados em uma apresentação de desempenho trimestral, ignorando o vazamento.
Há estruturas que não colapsam porque ninguém viu o problema, mas porque todos aprenderam a continuar a reunião apesar dele.


Claro que muita gente viu.

Claro que muita gente sabia.

Claro que muita gente compreendia que havia algo errado.

 

Grandes distorções não existem em segredo absoluto. Elas nascem e sobrevivem porque inúmeras pessoas preferiram não interromper o fluxo. Agir tem custo.

 

E é aqui que a discussão sobre integridade começa a ficar menos confortável.

 

Existe uma tendência quase infantil de imaginar a corrupção apenas como o ato espetacular do desvio explícito: o dinheiro escondido na cueca; o gritante enriquecimento do nada; o escândalo televisionado da PF chegando às 6h da manhã... Só que essas figuras, paradoxalmente, são as mais fáceis de identificar.

 

Muito mais difícil de encarar é a corrupção de quem preserva a própria imagem de “correto” enquanto participa passivamente da manutenção do erro. Afinal: “eu não fiz nada”.

 

Mas esse é justamente o ponto!

 

Não fez quando deveria fazer...  Em certos contextos, não fazer nada já é uma decisão moral completa.

 

Aquele silêncio conveniente; uma dúvida que não é registrada; uma inconsistência que ninguém denuncia; um “melhor não mexer nisso” ou o velho “não vale a pena comprar essa briga”.

 

Nada disso parece dramaticamente errado isoladamente. Mas é justamente assim que estruturas inteiras se deterioram: menos pela ação dos que executam o desvio e mais pela omissão deliberada dos que assistem.

 

Existe algo particularmente sedutor nessa forma omissiva de corrupção. Ela permite ao indivíduo preservar a própria autoimagem. O sujeito não se percebe como corrupto. Ao contrário, se percebe como prudente. Profissional. Maduro. “Alguém que não cria problema”.

 

Como se a vista grossa não fosse uma forma de degradação moral: uma substituição gradual da integridade pela conveniência. Porque integridade não é apenas não roubar.  Integridade é manter alguma coerência entre aquilo que se vê, aquilo que se pensa e aquilo que se faz diante disso.

 

Há uma imagem literária antiga muito interessante: o ponto mais baixo do inferno não é reservado aos explosivos, aos passionais ou aos violentos. É reservado aos congelados. Aos que perderam completamente o movimento moral. A capacidade de reação. O impulso de interromper o erro.

 

Não é o fogo. É o gelo.

 

Há uma verdade profunda nisso: a corrupção mais destrutiva não é barulhenta, mas silenciosa. Hannah Arendt já falava sobre o mal é banal e opera tão somente pela anestesia da consciência.

 

Assim como o oposto do amor não é o ódio, mas a indiferença; o oposto da integridade não é roubar, mas abrir mão do próprio juízo para preservar conforto, posição ou tranquilidade.

O fazer algo não precisa ser espetacular. Mas, se indignar é fundamental.

 

Tem hora que o “não fiz nada” não é defesa. É confissão.

 
 
 

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