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Burnout não é um problema do trabalhador

  • Giselle Guimarães Gomes
  • há 3 horas
  • 3 min de leitura

Por que o adoecimento ocupacional é menos uma questão de resiliência individual e mais um problema de coerência institucional.


Durante muito tempo, tratamos o burnout como um problema individual.

 

A solução parecia simples: mais resiliência, mais inteligência emocional, mais terapia, mais mindfulness, mais cursos sobre como lidar com a pressão.

 

Se alguém adoeceu, a pergunta era quase automática:

 

"O que aconteceu com essa pessoa?"

 

Mas essa é a pergunta errada.

 

Em 2019, Jennifer Moss publicou um artigo na Harvard Business Review defendendo uma ideia que continua surpreendentemente atual: burnout não é, em primeiro lugar, um problema das pessoas. É um problema das organizações. A Organização Mundial da Saúde seguiu caminho semelhante ao classificar o burnout como um fenômeno ocupacional, não como uma doença da personalidade, não como uma falha moral, não como falta de capacidade de adaptação.

 

A mudança parece sutil. Não é.

 

Ela desloca o foco da análise. A questão deixa de ser "o que há de errado com este trabalhador?" e passa a ser "o que há de errado com a forma como o trabalho está organizado?"

 

O que o ambiente faz com as pessoas

 

Existem organizações nas quais as pessoas sabem o que devem fazer, por que devem fazer, quem decide, quem responde e quais são os critérios utilizados para tomar decisões.

 

E existem organizações nas quais essas respostas se tornam progressivamente nebulosas.

 

As normas não conversam entre si. As competências são difusas. As responsabilidades não correspondem aos poderes efetivamente exercidos. As decisões são tomadas em um lugar, mas assumidas em outro. Os objetivos declarados deixam de guardar relação evidente com as práticas cotidianas. Os problemas se acumulam sem que suas causas sejam enfrentadas.

 

Aos poucos, todos passam a operar dentro de um sistema que já não compreendem integralmente.

 

Nessas situações, o sofrimento não decorre apenas da quantidade de trabalho. Decorre da necessidade permanente de administrar contradições. Não se trata de esforço excessivo. Trata-se de esforço sem sentido claro. De tensão sem resolução. De conflitos que nunca desaparecem porque foram incorporados à própria estrutura da organização.

 

Aprendi isso na prática, ao longo de anos dentro de uma dessas organizações. Fui documentando algumas dessas incoerências [aqui], [aqui] e [aqui].

 

O equívoco da resiliência

 

A resposta quase automática ao burnout costuma ser a defesa da resiliência e da inteligência emocional. Como se o problema estivesse na incapacidade das pessoas de suportar aquilo que lhes é imposto.

 

Vale lembrar o que esses conceitos significam de fato.

 

Resiliência não é suportar qualquer condição indefinidamente. Um material resiliente suporta tensões e retorna ao seu estado original até certo ponto. Ultrapassado esse limite, ocorre deformação ou ruptura. Ser resiliente não significa ser imune ao dano.

 

Da mesma forma, inteligência emocional não significa ignorar problemas para preservar uma aparência de normalidade. Não significa fechar os olhos para contradições evidentes. Não significa aceitar passivamente situações disfuncionais.

 

A capacidade de perceber incoerências não é sinal de fragilidade. É sinal de lucidez. O problema não é que algumas pessoas enxergam contradições demais. O problema é que, em certas organizações, as contradições realmente existem.

 

O limite das intervenções individuais

 

Existe um equívoco igualmente frequente nas respostas organizacionais ao burnout: tratar sintomas como se fossem causas.

 

Programas de bem-estar, sessões de mindfulness, apoio psicológico individual. Tudo isso pode ajudar pessoas a atravessar momentos difíceis. Não estou dizendo o contrário.

 

Mas nenhuma dessas intervenções é capaz de corrigir uma estrutura organizacional incoerente. Elas atuam no indivíduo. O problema está no ambiente. São respostas legítimas ao sofrimento, mas não são a solução para a sua causa.

 

Quando o adoecimento continua mesmo com todas essas ferramentas disponíveis, a pergunta certa não é "por que essa pessoa não está melhorando?". A pergunta certa é "o que no ambiente continua produzindo esse adoecimento?"


Burnout é menos um excesso de sensibilidade e mais uma reação humana previsível a um ambiente organizacional adoecedor.

 

O canário e a mina

 

Moss cita em seu artigo uma metáfora usada pela pesquisadora Christina Maslach. Durante anos, canários eram levados para minas de carvão porque eram extremamente sensíveis aos gases tóxicos. Quando adoeciam, serviam de alerta para os mineiros.

 

A pergunta correta nunca foi: "O que aconteceu com o canário?"

 

A pergunta correta sempre foi: "O que está acontecendo dentro da mina?"

 

O burnout deveria ser compreendido da mesma forma. Não como evidência de fragilidade individual. Mas como um sinal de que existe algo no ambiente organizacional que deixou de funcionar adequadamente.

 

Porque, no fim, o oposto de burnout não é resiliência.

 

É coerência institucional.

 

Ilustração em tons sépia no estilo de Escher mostrando uma escadaria isométrica impossível, onde figuras de pessoas em trajes de trabalho sobem e descem degraus que se conectam de forma contraditória, sem destino claro. Ao redor da estrutura, legendas indicam: normas que não conversam entre si, responsabilidades sem autoridade correspondente, competências difusas, soluções que atacam sintomas não causas, decisões em lugares diferentes, objetivos desconectados da prática, problemas que se acumulam, sistema que já não se entende. No centro, o texto: "O problema não é o esforço das pessoas. É a arquitetura do sistema." No canto superior esquerdo: "O oposto de burnout não é resiliência. É coerência institucional."
Pessoas em movimento, sistema sem saída. O burnout começa na arquitetura do sistema.

 
 
 

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