Cálice
- Giselle Guimarães Gomes
- 20 de mai.
- 3 min de leitura
Integridade exige pessoas dispostas a falar
Nos últimos textos, venho falando bastante sobre integridade, responsabilidade e os mecanismos silenciosos que permitem que problemas estruturais sobrevivam por anos dentro de organizações públicas e privadas, principalmente naquelas com interesses complexos.
Mas existe um conceito importante, ainda pouco discutido no Brasil, sem o qual essa conversa fica incompleta: whistleblowing.
Porque é fácil defender integridade:
enquanto ela é abstrata;
enquanto ela é publicidade;
enquanto ela é treinamento;
enquanto ela é cartilha.
O problema começa quando integridade exige custo real:
contrariar hierarquia;
expor incoerência;
registrar desconforto;
sustentar posição impopular;
ou permitir que pessoas falem sem serem destruídas socialmente depois.
Aí o conceito deixa de ser decorativo.
É justamente nesse ponto que entra o whistleblowing.
O termo vem do inglês “to blow the whistle” — “assoprar o apito” — numa referência ao policial que percebe uma irregularidade e chama atenção para aquilo.
No Brasil, o tema ainda é relativamente incipiente, embora tenha avançado nos últimos anos com legislações como a Lei 13.608/18, iniciativas da CGU e discussões mais recentes sobre proteção a denunciantes no mercado financeiro.
Mas talvez o primeiro ponto importante seja desfazer uma confusão comum:
whistleblower não é “dedo-duro”.
Também não é investigador, juiz ou promotor.
E, principalmente, não é alguém obrigado a entregar um caso completo, fechado e provado.
Em sistemas complexos, as coisas raramente aparecem de forma explícita.
Fraudes, irregularidades, manipulação de indicadores, controles fictícios, distorções administrativas ou financeiras dificilmente são visíveis para quem está fora da estrutura. Não porque falte inteligência às auditorias, corregedorias ou órgãos de controle, mas porque sistemas complexos fragmentam informação. Cada pessoa vê apenas um pedaço.
O whistleblower muitas vezes é justamente quem consegue conectar os pontos.
É quem consegue explicar:
como determinado fluxo funciona;
onde está a vulnerabilidade;
qual controle existe apenas no papel;
quais números não fecham;
onde discurso e prática deixaram de coincidir.
Isso não é “provar” um ilícito.
É tornar visível algo que talvez jamais fosse percebido sem aquele relato.
Investigação séria não começa com certeza absoluta.
Começa com hipótese plausível.
Talvez por isso o tema do whistleblowing produza tanto desconforto.
Porque, em alguma medida, ele toca num problema humano muito antigo: o conflito entre ver, compreender e permanecer em silêncio.
Não por acaso, uma das metáforas mais fortes sobre isso na cultura brasileira tenha vindo justamente do jogo entre “cálice” e “cale-se” na música de Chico e Gil, escrita em pleno regime militar.
E talvez aqui esteja um dos maiores desconfortos em torno do tema.
Porque o whistleblowing frequentemente envolve uma ruptura de lealdade, mas não da forma como normalmente se imagina.
A lealdade institucional não é devida a pessoas, a quem está no comando da vez. Pessoas vêm e vão. Governos caem, regimes mudam.
Assim, a lealdade verdadeira é aquela devida à própria instituição, à sua finalidade e à sua integridade.
Tem um livro muito bom intitulado “Por que as Nações Fracassam”, e a tese central do livro está justamente na incapacidade de fortalecer instituições que perpassam governos e gerações.
Quando alguém aponta uma fraude, uma distorção grave, um mecanismo deliberadamente opaco ou uma prática incompatível com o interesse público ou com a própria missão da organização, isso pode até representar deslealdade pessoal a indivíduos específicos, grupos internos ou relações de poder estabelecidas.
Mas não é deslealdade à instituição.
Pelo contrário.
Em muitos casos, o silêncio é que é.
É claro que o custo de falar é alto. Não por acaso, sociedades maduras tentam proteger whistleblowers. Não porque presumam que toda denúncia seja verdadeira, mas porque compreendem que sistemas complexos inevitavelmente criam pontos cegos e que, sem pessoas dispostas a falar e a contextualizar, muitos problemas jamais sequer chegariam a ser investigados.
Leis ajudam.
Canais de denúncia ajudam.
Programas de integridade ajudam.
Mas o verdadeiro desafio ainda é cultural. É sair da cultura do “você sabe com quem está falando?” para uma em que o quem importa menos do que o quê está sendo dito.
Lá se vão quarenta anos do fim da ditadura, mas a tentativa permanente de controle do discurso, da linguagem e dos limites do que pode ou não ser dito mostra que a imposição do silêncio ainda é um tema atual.
O verdadeiro teste de integridade de uma instituição não está em como ela reage ao elogio.
Está em como reage a quem aponta suas rachaduras.
Desconfie de quem lhe oferece um cálice.





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